O que podemos aprender com os estudantes de engenharia

Por Luís Artur Nogueira

No mês passado eu tive a oportunidade de visitar a FEI, tradicional escola de engenharia, em São Bernardo do Campo (SP). Conheci boa parte dos 18 prédios do campus, incluindo laboratórios, salas de aula e bibliotecas. O primeiro ponto que me chamou a atenção foi a existência de inúmeras carteiras ao longo dos corredores, com tomadas elétricas. No horário do almoço, elas estavam ocupadas por jovens que, com cadernos, calculadoras e laptops, faziam cálculos e mais cálculos. Em silêncio.

O empenho de alunos nos cursos de engenharia é sabidamente muito grande. É o tipo de curso em que não se tira o diploma sem estudar muito. A dedicação mais interessante, no entanto, eu constataria nos diversos laboratórios espalhados pela FEI. Jovens entre 17 e 24 anos que ficam na universidade após o horário das aulas para mergulhar em projetos como competição de robôs e corrida de veículos off road. Tudo construído por esses universitários talentosos e promissores, num ambiente que transpira inovação.

Encerrada a visita guiada pelo diretor do Instituto de Pesquisas e Estudos Industriais (IPEI), Vagner Bernal Barbeta, chegou o momento de proferir uma palestra para cerca de 150 alunos, que em troca arrecadaram alimentos para uma entidade beneficente. O auditório lotado para ouvir sobre o atual cenário político e econômico era a demonstração do interesse – e da preocupação – que eles têm em relação ao futuro do País e, particularmente, do mercado de trabalho.

Quando abordei a crise política e a Operação Lava Jato, era nítida a reação de perplexidade da plateia. A doce ingenuidade da juventude aliada à falta de tempo para acompanhar o noticiário talvez explique a surpresa com o mar de lama em Brasília. Em determinados momentos da apresentação, provoquei a plateia com enquetes que eram respondidas instantaneamente através de equipamentos eletrônicos. Detalhe: o voto era secreto. Em uma delas, ofereci um leque de cinco problemas para que eles, num passe de mágica, eliminassem apenas um. Inflação, desemprego, corrupção, violência ou saúde. A corrupção venceu com 49% dos votos, seguida pelo desemprego (27%).

Traçando uma hipótese remota, mas não impossível, perguntei em qual partido eles votariam se houvesse uma eleição antecipada, indicando os prováveis nomes de cada legenda. Para o PT, coloquei Lula, que obteve 4%. A Rede, com Marina, conquistou 11%. O PSDB, com Aécio, Alckmin ou Serra, obteve 32%. E o PMDB, com Temer, ficou com 2%. O mais surpreendente, no entanto, foi que 51% escolheram “nenhuma das opções anteriores”. Pode ser que eu esteja enganado, mas a minha interpretação é de que a maioria rejeitou os políticos de uma forma geral. Ou esqueci de listar alguma nobre liderança?

Se os principais políticos não estão causando frisson nos universitários – ao menos nos estudantes de engenharia da FEI –, há um dado ainda mais preocupante. Ofereci a eles uma proposta de emprego em quatro países latinos: México, Brasil, Argentina e Chile. Apenas 34% escolheram o Brasil. Fui tentar entender melhor esse dado após a palestra. Os que optaram pelo exterior justificaram a decisão pelo momento econômico ruim do País. Suspeito, no entanto, que a curiosidade juvenil em conhecer outros países possa ter influenciado o resultado.

Preocupante mesmo foi a constatação de que, entre os jovens engenheiros que optaram por trabalhar no Brasil, muitos acreditam que o sistema financeiro seja o seu destino mais provável. Nada contra engenheiro trabalhar em banco. O problema é que já assistimos a esse filme nos anos 1980 e 1990, e o final da história foi a escassez de engenheiros quando a economia voltou a crescer, na década passada. Pelo visto, teremos uma reprise em breve.

 

O artigo foi originalmente publicado na ISTOÉ Dinheiro em 25/06/2016

*Luís Artur Nogueira, jornalista a economista, é editor da ISTOÉ Dinheiro e palestrante de cenário econômico e político

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